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O debate público, quando consegue respirar, o faz por dispositivos. Com uma sociedade fragmentada em grupos incomunicáveis, o espaço para diálogos honestos, para os quais a tolerância é necessária, se tornou restrito. Esse quadro só é reforçado pelos momentos de “debates” formais, ou de “conversas” gravadas entre pessoas dos dois lados, televisionados ou acessíveis a todos na internet. Usamos aspas para falar desses debates e conversas, pois eles se aproximam mais de dois monólogos, um em seguida do outro, quando não em cima do outro (geralmente aos gritos). Além da polarização – que beira uma divisão total, na qual não há nenhuma base comum, nem mesmo as regras do jogo político -, essa fragmentação é desmobilizadora para alguns grupos, que veem a política como um caso perdido. Veem a política como fundamentalmente incapaz de atender a suas demandas. No entanto, vale lembrar que essa posição apolítica não é neutra. Ela é um terreno fértil para o surgimento e fortalecimento de personalidades autoritárias.
A situação da arte não é diferente. As posições profundamente distintas, entre os conservadores culturais e os vanguardistas, também não se comunicam. As discussões sobre qualquer obra produzida nos últimos anos evidencia isso. De um lado, há os que a consideram a degeneração da cultura, assim como toda obra que não se enquadre no cânone ocidental, mas que leram apenas a etiqueta dos livros que compraram. De outro, há uma comunidade acadêmica, de críticos, pesquisadores e artistas que, por tanto falar entre si, se esqueceu da existência de um mundo externo a essa bolha – embora tivessem muito a dizer para fora dessa bolha. Fora desses dois extremos, há um grupo muito curioso e heterogêneo. Entre esses intermediários há os que querem uma arte neutra, sem pretensões políticas, que se opõem a todo tipo de discussão sobre o caráter político de seu game, filme de super herói ou livro de fantasia preferido. Há também os que se consideram críticos, embora tenham sequer cogitado considerar a arte um campo sério e rigoroso.
Nessa descrição falta um elemento decisivo da constelação atual, o que transformou os comentários de mesa de bar, de praça de alimentação de shoppings, ou mesmo de jatinhos particulares, em comentários públicos – e público no sentido mais forte que já se teve na história da humanidade. A legitimidade da arte, e junto com ela a da crítica, é posta seriamente em questão ao menos desde as vanguardas do início do século XX. As redes sociais transfiguraram os restos cadavéricos da crítica. Quando se diz crítica se pensa nos comentários de Letterboxd – ou em uma outra social media qualquer – ou nos guias de consumo de sites e jornais, sempre com uma escala inteiramente quantificável, indicando a adequação do consumo da obra para cada perfil de consumidor. Talvez a crítica de arte não se reduza a isso.
A revista uTópico existe nessa possibilidade. A discussão em torno da arte não só pode ser, como já é de interesse público – basta pensar na repercussão dos Oscars ou das estrelas de música nacional e no peso político dessas manifestações. Talvez seja possível que ela, assim como as discussões políticas, se tornem mais democráticas. As social medias e sites que se anunciam de crítica são frequentados. Talvez haja um interesse na arte pelo que ela é, não apenas como mercadoria. A possibilidade de que a crítica de arte seja mais do que o existente parece utópica, mas não é. As condições concretas para essa mudança existem.
A revista uTópico é resultado das discussões sobre a posição da crítica de arte de um grupo de estudantes de filosofia do IFCH/Unicamp, iniciadas em 2025. Frente ao cenário apresentado, se considerou importante criar um espaço que conseguisse articular o rigor e a produção acadêmica mais atual, sem usar uma linguagem que restringisse o alcance desses textos à comunidade especializada. Essa importância é, pelo menos, dupla. Além de divulgar e democratizar o acesso à informação e conhecimento resultante da pesquisa na universidade pública, isso será vinculado ao campo da arte, para onde confluem diversas demandas concretas, como a do reconhecimento social e da formação de uma cultura democrática.
Nas discussões que deram origem à revista, reconhecemos dois elementos como essenciais para atingir seu objetivo: uma concepção de crítica não-comercial e a formação de uma comunidade democrática. Propor uma crítica de arte não-comercial significa rejeitar a tentativa de avaliar as obras em termos quantificáveis, pois o objetivo não é estabelecer uma hierarquia, mas buscar o que há de interessante nelas. Para isso, a crítica busca o nervo da obra, seu aspecto central, que surge na experiência estética. A apresentação parte sempre da especificidade dessa experiência e busca argumentar de modo rigoroso em defesa de uma posição, de modo a tornar possível um debate frutífero em torno da obra.
Sem uma comunidade democrática, na qual haja um debate em que posições divergentes possam efetivamente dialogar, não é possível concretizar o objetivo de articular a pesquisa acadêmica com as demandas externas ao campo especializado. Para consolidar essa comunidade, se considerou importante ter um direcionamento claro, um elemento comum em torno do qual esse grupo possa se formar. A revista uTópico direciona seu olhar a obras brasileiras contemporâneas, em especial as marginalizadas por sua forma, origem, ou circulação. Essa comunidade não pode ser formada apenas por leitores e críticos, os artistas e as instituições de arte também são elementos fundamentais para o circuito cultural. Por isso, não serão publicadas somente críticas. Serão publicadas regularmente também entrevistas com artistas e comentários a eventos, apresentações, mostras, entre outros. Por razões geográficas, esses eventos e artistas serão principalmente da região de Campinas. Nisso, há também o objetivo de consolidar e divulgar a vida cultural da cidade, além dos diversos artistas emergentes com pouca visibilidade.
A revista uTópico pretende publicar três números por ano, dois regulares e uma edição temática. Ela será fundamentalmente online, com edições impressas esporádicas, dependendo de financiamento. Os textos serão recebidos e publicados em fluxo contínuo e, no final de cada semestre, um número será fechado, com os textos publicados naquele período. A edição temática terá uma chamada específica para a publicação dos textos, tendo como eixo central um tema selecionado pela equipe editorial. O objetivo da edição temática é aprofundar a discussão em torno de um tema que se considera importante, mas de algum modo sub-representado.
Os números regulares serão compostos por: críticas de arte; entrevistas com artistas (sempre acompanhadas de ao menos uma crítica de uma obra sua); críticas de eventos – concertos, mostras, peças, entre outros; traduções de textos, que se encaixem no escopo da revista, ou que tiveram importante influência em outros textos publicados; e um texto editorial, com tema variado. As edições temáticas terão um formato mais variável com base no tema, embora o objetivo central continue sendo o debate sobre obras de arte – ou como as obras exploram a temática proposta. Além dos textos que compõem os números, o site da uTópico tem uma agenda com os eventos culturais que acontecerão na cidade de campinas e uma newsletter semanal com resenhas curtas de alguns desses eventos.
Como o objetivo da revista é ser um espaço democrático de debate, os textos publicados não necessariamente refletirão a posição do corpo editorial. Os textos publicados com a assinatura da revista refletem a posição do corpo editorial. Além disso, a submissão de réplicas e tréplicas a textos já publicados é aceita e incentivada, por ser um importante mecanismo de enriquecer o debate.
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