NAS CORRENTEZAS – CRÍTICA DO CONTO “RIO DOS BOIS” DE OTAVIO LEONIDIO

“[…] porque o homem vive no tempo, na sucessão, e o mágico animal [o gato], na atualidade, na eternidade do instante.

O Sul, de Jorge Luís Borges, 1944

Uma carta nunca enviada, um diálogo que não alcança o destinatário, sobre a memória de uma ausência, que cria ausência de memórias. Rápido e urgente – como a correnteza do Rio dos Bois – , melancólico e angustiante, no entanto, conformado – como as palavras de Boi Morto (Manuel Bandeira, “Boi Morto”, Opus 10, 1952) e O Sul – Otavio Leonidio nos narra um encontro em um ônibus em movimento, o qual se figura, eterno e fixo, no centro das lembranças do narrador, tecendo uma tensão que fica atada em nosso peito sobre passagem de tempo, eternidade e memória. Rio dos Bois1 é o retrato cortante do desespero que sobe à garganta quando revisitamos nossa vida e pensamos: e se. E o e se é sensação trágica intrínseca à memória sobre a Ditadura Empresarial-Militar Brasileira.

A narrativa de Leonidio é apresentada por uma epígrafe: uma citação do conto O Sul, de Jorge Luís Borges, conto que narra a história de um bibliotecário que, após sofrer um acidente e passar dias internado, decide viajar de trem para o interior dos pampas argentinos, onde, só e isolada, está uma antiga casa que herdou de sua família. Próximo ao seu destino, é provocado por um grupo de gaúchos embriagados a uma briga. Conformado e tendo sonhado – quando estava no hospital – com uma morte em uma briga de facas sob a luz da lua, o protagonista aceita seu destino, o qual parecia estar escrito nas leis que regem a vida no Sul. E é justamente essa tranquilidade perante o tempo e a morte, aceitação do destino, que é evocada na frase escolhida por Leonidio para iniciar seu texto: “Sentiu que se ele, então, tivesse podido escolher ou sonhar sua morte, esta é a morte que teria escolhido ou sonhado”. (Borges, O Sul). Tal passagem, além de antecipar uma sensação presente em Rio dos Bois, traça um paralelo com a obra de Borges: a viagem, a discussão sobre o tempo, a memória e a morte. Morte, que será o assunto do parágrafo seguinte.

Em itálico, Otavio Leonidio nos leva para um cenário mórbido, obscuro, turvo e introspectivo: ele nos leva para a morte do narrador do conto. A história, portanto, se inicia pelo fim e nos apresenta o desespero do narrador nos minutos que precedem seu fim: tudo é ruína, tudo é fragmentado, tudo é turvo, as coisas boiam em águas escuras, os destroços o cercam, ele se sente meio “submergido, dividido, subdividido” (Leonidio, Rio dos Bois). No entanto, algo é nítido – mesmo que meio amorfo – em meio às águas que o afogam: o corpo de um boi morto. Aqui temos outra intertextualidade: o narrador afirma que, mesmo em meio ao caos da morte, ele encontra paz ao se recordar de um poema de Manuel Bandeira: Boi Morto. O parágrafo em itálico que inicia o texto, a morte do narrador, é a releitura do poema de Bandeira. E reconstruir este poema, em seu leito de morte, é o que confere aceitação e serenidade ao narrador. No entanto, para o leitor, seja do poema de Bandeira, seja do conto de Otávio Leonídio, o boi se apresenta de forma enigmática em seu tamanho descomedido e espantoso, nítido em meio à enchente turva do esquecimento, mas, ao contrário do espanto que sentimos ao nos confrontarmos com o boi morto, este é, para o narrador e para o eu-lírico, a conformação perante a morte. E, assim como o boi, o que fica nítido para o narrador do texto é uma lembrança, a memória de um encontro, o qual ele passou a vida visitando e revisitando em sua mente.

O texto em itálico é interrompido por um asterisco. O ambiente e o tempo mudam, assim como o estilo do texto. Somos levados para um encontro em um ônibus, em 1972; o devaneio do boi morto é abruptamente interrompido pela indagação “o que você está lendo?”. Se, de um lado, nós fomos impedidos de acompanhar a morte do narrador, a pessoa a quem ele dirige a pergunta também é impelida de sua leitura introspectiva de Opus 10, de Manuel Bandeira. Como em uma carta ou conversa, o narrador se refere a pessoa que ele encontra no ônibus na segunda pessoa: “eu te perguntei, e você, querendo se livrar o mais rapidamente possível de um estranho pronto a estorvar a tua viagem, respondeu, desafiadora […]”. Logo, nós, que seríamos apenas leitores testemunhas, nos tornamos a representação da moça com quem ele se comunica. Somos o destinatário dos devaneios e sentimentos do narrador ao se confrontar com aquela memória. O diálogo inusitado em um “ônibus que se arrasta, trôpego, a caminho do Araguaia” (Leonidio, Rio dos Bois)  se inicia incômodo, mas rapidamente, quando o narrador cita, para a mulher que lia, uma frase do livro em questão, o que era um desconforto se torna algo especial. A frase citada é justamente: “Que o corpo, esse vai com o boi morto”, fim de uma estrofe de “Boi morto”, poema presente em Opus 10.

A carta é construída a partir das tensões do tempo e do movimento, tensões estas que assumem a forma da água, da correnteza de um rio, o qual não é linear, mas sim cheio de meandros, curvas, ires-e-vires. Assim como a água na correnteza não passa duas vezes pelo mesmo lugar, a vida não volta; no entanto, o serpentear do rio e as lembranças não seguem uma linearidade. A água corrente é a imagem que cerca o texto em sua integridade. Memória e movimento, transbordamento e luto.

O tempo é tensionado de diferentes formas: a mais marcante é o uso do presente para a narrativa. A história, mesmo que ocorrida no início da década de 70, nos é apresentada no presente, como que instantânea: “E tudo isso você vai me contando pelo caminho, à medida que o ônibus sacoleja e avança e vão passando cidades e povoados cujos nomes você vai anotando num caderninho […]” (Leonidio, Rio dos Bois). Tal escolha torna a lembrança do encontro mais vívida, mais palpável e próxima; nos mostra que, mesmo sendo uma memória antiga, ela marca a vida do narrador e torna toda a sua vida um depois. Como ele mesmo diz: “[…] eu terei certeza (como eu certamente teria te confessado mais tarde, se houvesse mais tarde) que tudo a partir de agora será um longo depois, e que não há nada que eu possa fazer a respeito disso” (Leonidio, Rio dos Bois). Justamente nesse fragmento, temos contato com uma segunda tensão, a tensão do e se, a sensação de revisitar um ponto marcante em nossas vidas e nos questionarmos sobre o que poderia ter acontecido se a história tivesse tomado outro rumo. O que é apenas a memória de um encontro se torna, em si, a memória de uma ausência. O peso de tal ausência e a criação imaginária de diversos mundos possíveis se o desenrolar do encontro fosse outro marcam todo o desenvolvimento do texto. E o desespero do e se é expresso na própria forma pela qual o conto nos é apresentado: todos os parágrafos (com exceção do primeiro) se iniciam com a conjunção aditiva E. O uso da conjunção, além de deixar o espaço de desabafo mais íntimo e informal, confere maior dinamismo e movimento para a narrativa, ritma a memória e a torna ligeiramente desesperada, frenética, como se nos contada entre choros, suspiros e soluços ao pensar no que poderia ter sido. O narrador, enquanto nos conta a história, se encontra numa correnteza de lágrimas.

Mas não é apenas na forma da interlocução escolhida pelo narrador que a linearidade temporal é desafiada. Na passagem supracitada, encontra-se, entre parênteses, uma observação que demonstra outros períodos de tempo — observação que é repetida no texto, mais adiante. Ou seja, o narrador demonstra que o encontro no ônibus é uma lembrança ao tensioná-lo com outros pensamentos acerca dele, pensamentos que ocorreriam no futuro do episódio apresentado. Na passagem em questão, nota-se que o narrador sabe, quando narra, que não houve, ao longo da sua vida, outro encontro com a leitora e lamenta: e se? O mesmo ocorre na seguinte passagem: “embora eu só vá saber disso muito tempo depois” (Leonidio, Rio dos Bois).

Enquanto o ônibus se move, eles conversam, são líricos, apaixonados, cheios de uma energia romântica juvenil. São idealistas. Ela sonha em ser escritora, em escrever contos sobre as cidades que passam, velozes, no exterior do meio de transporte. Citar as cidades confere, de novo, dinamismo e fluidez para o texto: “Cocalzinho, Mombaço, Santa Felicidade, […], Aliança, Crixás, Santa Rita, Nova Rosalândia, Paraíso, Cercadinho, Miranorte, Morro Perdido, Rio dos Bois” . Quando lê “Rio dos Boisem alguma placa da estrada, a jovem escritora anota em sua caderneta e diz que, um dia, escreverá um conto para cada uma das cidades por onde passaram, e narra como seria o início de Rio dos Bois. Ao perguntar para o narrador sua opinião sobre o futuro conto, ele não consegue dizer nada, uma vez que apenas consegue “sentir a tua presença […] Me deixar levar — […], do jeito que alguém se deixa levar pelas águas do rio, que é de fato como eu me sinto agora, sendo levado por um rio, teu rio, você” (Leonidio, Rio dos Bois), novamente trazendo à tona a imagem da correnteza.

No entanto, a beleza daquele encontro é interrompida: a jovem chegou em seu destino. Levanta-se depressa e se despede, deixando o narrador imóvel, sem nada conseguir dizer além de um apertado adeus. E, novamente, como se quebrasse as leis da ideia de um tempo contínuo e linear, ele passa mal: “o que eu sinto é vontade de vomitar, só isso, por que eu ainda não sei.” (Leonidio, Rio dos Bois) Ele entenderá o motivo de sua angústia anos mais tarde, quando descobrir que o verdadeiro destino da moça é Conceição do Araguaia. O Araguaia, no fim da década de 60 e início de 70 foi palco de um movimento guerrilheiro, resistência armada contra a ditadura militar. Para além de uma poeta marginal no Rio de Janeiro, a escritora era uma revolucionária, uma mulher que ia para uma base rural lutar pela liberdade e pelo fim da Ditadura Empresarial-Militar Brasileira. A jovem artista nunca conseguiu chegar ao seu destino, pois foi sequestrada, morta, e seu corpo, nunca encontrado. Anos mais tarde, o narrador veria a foto 3×4 da moça, se recordaria do encontro e sofreria, sentiria a angústia do e se. E se a resistência do Araguaia fosse vitoriosa? E se ele tivesse acompanhado a mulher? E se ela tivesse se atrasado e encontrado seus companheiros ao invés de seus algozes? E se ela tivesse sobrevivido? Como seria sua vida? Eles teriam se reencontrado mais tarde? Se amado? Passariam uma vida juntos? Seriam descomedidamente românticos e idealistas? E se ele a tivesse impedido de sair daquele ônibus? Tivesse parado a correnteza, congelado o movimento do rio e dito tudo o que se passava em sua cabeça? As coisas seriam diferentes? Nunca se soube o que fizeram com o corpo da jovem artista. Ela desapareceu. Assim como centenas de pessoas durante o regime militar: pais, mães, irmãos, filhos, estudantes, trabalhadores, revolucionários. Inúmeras famílias no Brasil tiveram e têm que viver com a angústia do e se. Lidar com a ausência de familiares nas fotos, nos eventos importantes, no dia a dia. Aqueles que seriam vidas tornaram-se apenas memória e ausência.

E, ao expor tanta angústia, ao sintetizar, em um conto — gênero que trabalha a partir dos limites, que é diminuto por essência, “uma fugacidade numa permanência”2 —, Rio dos Bois se engrandece. As possíveis vidas não contadas, subliminares e tão fortemente presentes no sentimento expresso no texto, fazem com que ele se eternize e seja revisitado, como uma memória. A ausência e a correnteza estão em cada palavra do conto. Ao narrar um acontecimento que gera um longo depois na vida de um jovem, o conto de Otavio Leonidio, agudo e certeiro em nosso peito, crava a sensação desse mesmo depois e do e se.    

Uma vida seria cruelmente extinta. O narrador sentiu isso, não soube expressar em palavras. Ele ficou catatônico, o mundo passava rápido ao seu redor — “a estrada, a floresta, a chuva, o lamaceiro, as pontes, os rios e os bois e as cidades e os nomes das cidades, tudo passando por mim como se fosse eu que estivesse parado, para sempre parado e perdido” —, e ele ficou preso na sensação inefável da perda: um contraste com o movimento amplamente expresso no texto. Mas, mesmo que a vida da artista tenha sido levada, junto com as infinitas possibilidades que uma vida carrega, algo daquele encontro restou: “Minha história”. A história que o narrador construiria, mesmo naquele longo depois do encontro. A história do narrador marcada pelo início do conto Rio dos Bois, escrito pela artista: “Quando se mudou para Rio dos Bois, assim que se aposentou, o homem, de quem ninguém ali nunca soube nada, e que uma vez apenas tinha passado por lá, 50 anos atrás, tinha uma única coisa em mente…(Leonidio, Rio dos Bois).

Outro asterisco corta o texto. O cenário volta a ser a morte do narrador. Agora, a água que leva, em sua correnteza, a vida, está chegando no teto, ele está totalmente submerso. E, perante a morte e as lembranças, o poema de Bandeira é, novamente, relido. O narrador não se encontra mais dividido nem subdividido. Ele está inteiro, em paz, contemplando sua morte, porque “da alma ninguém sabe o que será feito, mas o corpo — esse vai com o boi morto!” (Manuel Bandeira, “Boi Morto”, Opus 10).

  1. Disponível em: https://rascunho.com.br/ficcao-e-poesia/rio-dos-bois/ ↩︎
  2. Cortázar, Julio, Alguns aspectos do conto, em Valise de Cronópio, São Paulo, Editora Perspectiva, 2006 ↩︎

Autor

  • Nascido e criado na cidade de Amparo, interior de São Paulo, Caetano Dias é graduando do curso de filosofia pela Universidade Estadual de Campinas.

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